
Pousou a mala vazia em cima da cama e abriu os armários. Lá estavam elas, em sua habitual e colorida bagunça. Há muito adiava esse momento, por que fazer aquilo era admitir a partida. Era deixar, inevitavelmente, tudo pra trás e começar a escrever em uma página em branco. Sem ao menos uma linha ou uma borda de apoio.
Foi extraindo uma a uma as peças pelas portas e gavetas abertas. Delicadamente, quase como se as acariciasse. Quase como se pedisse desculpas pelo incômodo de tirá-las do lugar ao qual sempre pertenceram. Cada peça lhe fazia mergulhar em recordações, trazendo uma sucessão de cenas à sua cabeça. Ali, em sua mente, cada roupa que cobria seu corpo era parte vital da aquarela das memórias. Só ali elas conseguiam fazer sentido. Naqueles cenários exatos, entre as exatas pessoas que amava e que lhe importavam.
Agora, dobradas com cuidado e dispostas organizadamente, as cores já não aparentavam ser tão vivas quanto antes. Naquela mala, pareceu esvair-se das peças a possibilidade de colorir novas cenas. Como um quadro inacabado e esmaecido pela intempérie.
Com pesar amontoou algumas roupas das quais teria de se desfazer. Já não haveria espaço pra todas onde iria. E ter que deixá-las era como arrancar uma parte das lembranças das quais se orgulhava de ter construído.
Olhou o casaco pendurado no fundo do armário, esquecido em razão do calor. Já um tanto desbotado e descosturado em alguns cantos, mas quente e confortável como sempre. Tantas foram as horas em que ele lhe guardara do frio, físico e emocional. Tantas foram as memórias que ele ajudara a colorir. Tirou-o do cabide e, mesmo com o cheiro de guardado, vestiu-o. As mangas estavam curtas demais. Não sabia que tinha crescido assim. Surpresa, guardou-o de volta no armário, em dúvida de que destino lhe daria.
Retirou então do armário uma bata branca, recém-lavada e cheirando a amaciante. Seu tecido caía solto pelo corpo, perfeito para os muitos dias de calor que enfrentaria daqui pra frente. Dobrou-a e colocou na mala, em cima de uma das pilhas.
Terminado o trabalho, sentou-se na cama para contemplar o que havia feito. E percebendo o casaco ainda no armário, deu-se conta de que ele era como seu passado. Familiar e carregado da emoção de muitos momentos, mas que já não lhe servia mais. Ele já não deveria mais lhe pertencer, e teria que dar lugar a novas peças. E aquela bata, já dentro da mala, seria como seu futuro. Leve, sem nenhum peso a lhe angustiar. E branca, como a página em que começaria a traçar sua nova história.
Fechou a mala, e pensou que talvez um dia as roupas ali poderiam recuperar a cor e voltar a fazer sentido em outros cenários, com outras pessoas. Não o mesmo sentido que faziam antes, e sim um sentido que ainda descobriria. Pegou o casaco no armário e colocou no montinho de roupas separadas para desfazer-se. E agora já sabia: ele seria perfeito pra dar vida às lembranças de novas pessoas.

9 comentários:
É bom ver você escrevendo de novo...
Boa sorte na sua nova história e que a bata lhe cubra de alegria
Que belo texto Nay! Como sempre utilizando as palavras lindamente. Parabéns! Que essa nova jornada na sua vida seja maravilhosa, repleta de conquistas.
Oie...
Visitando o blog!!
Achei muito massa!!
Parabéns....é inspirador!
Depois da uma olhadinha no meu eu fiz outro dia, quase não tem postagens mas...sei lah!!
www.iargo.blogspot.com
Gostei. Foi Iargo quem indicou esse blog. E achei massa o teu jeito de escrever. Vou seguir.
Xero do Xéris.
Que texto lindo! E impecável! Gostei muito!
Muito sucesso na sua nova trajetória, estou torcendo por você querida !
Muito bacana esse texto!!! Você quem escreveu né?! Quanto talento! Já vi que vou visitar sempre esse blog! Beijo grande.
Ei, pestee, tu que não liga pra mim nunca nessa vida, vê se dá um up no seu blog e aparece lá no meu.
Ingratidão da vida inteira!
TE AMO!
http://ccaleidoscopicoo.blogspot.com/2010/09/nas-tuas-veias.html
lindo lindo,
é preciso ter coragem pra vestir a bata branca (?)
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