
Confesso. Minha culpa, minha máxima culpa. E pior (ou melhor?): não me arrependo, roubaria de novo. Mas mesmo que quisesse, não poderia. Um furto desse tipo não se faz duas vezes. Quer saber? Explico.
Eu ia como quem nada quer. Andar desprocupado, sempre na maciota. E foi então que eu vi. Irrefreável, o impulso desceu por minhas mãos e, antes que eu me desse conta, aconteceu.
E era céu e era sol e era vento e era cor e era luz e era o menino e era a pipa e era a bicicleta e era a menina e era o vestido florido e eram cachos e era terra e era movimento e era a árvore e era o pássaro e era o homem de cabelos longos que me dizia que um dia lhe disseram que as nuvens não eram de algodão e era o cheiro do almoço de vó no domingo e era tudo junto misturado ao mesmo tempo agora e aí... Click.
Muito rápido, devo dizer. Só o tempo de uma sinapse e já estava feito. Eu havia roubado.
Roubado um instante do tempo.
E o dia passou e tudo mudou de lugar e a cor desbotou e veio a chuva e o sol secou e a lágrima caiu e o sorriso apagou e o menino cresceu e o vestido encurtou e o pássaro voou e a vida continuou.
Mas aquele momento estava parado, capturado e furtado pelas minhas lentes oculares e pelas lentes de uma câmera.
E agora se conto essa história é por que veio na memória numa enxurrada repentina esse monte de idéias e lembranças de gente de tempo de coisas passadas que não passam e chegam de vez emaranhadas até que... O papel e a pena calam o pensamento, sempre sedento e inesgotável.

7 comentários:
Como sempre a perfeição.
Ótimo texto, pra variar. E com direito a enxurrada de polissíndetos!
Muito legal o texto...senti um toque 'Engenheiros do Hawaii' numa passagem, ou estou ficando louco? ;)
Já era seu fã antes de conhecer seus textos, agora então...
Muito bom msm!
ãaaaae, adoreeei.. é intenso e cheio e colorido e alto. tudo ao mesmo tempo. *-----*
ameeeei, (L)
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