sexta-feira, 4 de julho de 2008

Triste Cortejo

Nunca tinha estado naquela casa. Numa crudelíssima ironia, acabei adentrando-a apenas em tal ocasião. Já na frente, as pessoas iam se ajuntando. Muitos rostos conhecidos marcados pelo mesmo olhar perdido. E como eu previa, depois de algum tempo, minhas lágrimas mostraram-se em companhia de outras daqueles que comigo estavam.
Quando a menina passou tão próxima de mim, pude, por um segundo, fitar-lhe os olhos. E assim, meu choro intensificou-se. Sua expressão era serena, a face daquela que ainda não sofrera o impacto e se recusava a acreditar. Enfim veio o homem, abatido e de olhos inchados; e o mais esperado por nós: o menino. Agora as lágrimas eram grossas: as minhas, as dos meus e as dos outros.
O menino a quem tantas vezes dei-me em abraços, que crescera em minha presença; que riu de mim, pra mim e comigo; que alegrou-me em tantas manhãs e tardes com suas tolices tão peculiares. O menino agora era apatia e tristeza. Cabisbaixo, trajado em sóbrio preto, não derramava o mínimo pranto. Talvez todo ele já tivesse rolado; talvez nunca rolaria, sufocado pelo estigma forçado de masculinidade, ou mesmo pela incredulidade.
A passagem do homem e do menino deu início ao cortejo. Pelo longo trajeto as pessoas se espalhavam. Ainda era dia claro. Entre os meus, o silêncio era cortante; entre os outros ouviam-se palavras muitas. Como de costume, passei a analisar o ambiente que me cercava. E perdi-me em indagações... Quantos ali sentiam de fato a dor? Quantos eram sinceros e quantos queriam apenas cumprir seu papel? Quais pensamentos estariam se passando nas mentes de todas aquelas pessoas?
Sim, muitos eram os que seguiam em respeitoso silêncio e deixavam cair modestas lágrimas. Mas também eram muitos os que não pareciam expressar a mínima emoção, nem ter certo tom de respeito, ao menos, em sua caminhada. Vestidos a passeio, conversavam sobre os mais diversos assuntos, sorrindo. Amigos que aproveitavam o momento para confraternizações íntimas. No meio dos anônimos, figuravam pessoas públicas, sedentas pelo reconhecimento e pela fama, numa lamentável aparição à custa do sofrimento alheio.
E essas cenas causaram uma mudança em meu semblante, já que eu contemplava, indignada e pasmada, faces diversas do ser humano. Por aquele caminho em que tantas vezes deitei sorrisos, música e dança, em que fui tão feliz e fiz festa, caíam agora minhas lágrimas de tristeza e reflexão. Como poderia estar lado a lado entre a multidão tanta pureza e fealdade? Como poderiam estar solidariedade, saudade, compaixão e pesar fundidos ao interesse, falta de consciência e desrespeito?
À frente, vozes em uníssono cantavam hinos, enquanto o menor ruído não ousava subir-me a garganta. O sol baixava, e o céu, entre azul e alaranjado, mostrava seu luto com nuvens escassas e escurecidas. Em passo lento, ia chegando ao fim a última caminhada ao lado de alguém com quem se caminharia na eternidade.
Enfim chegou-se ao destino. Já era escuro quando tive a última visão do menino, amparado por braços familiares. Esperei por algum tempo, e quando todos já se dispersavam, dei-lhe um forte abraço. Para ele sei que não significou muito, tantos foram os abraços conhecidos ou não que já lhe tinham dado até então. Quanto a mim, esforcei-me por colocar naquele abraço todo o conforto que poderia lhe transmitir.
Selado assim o toque de recolher, caminhei muda de volta pra casa, remoendo os acontecimentos do triste cortejo. Faróis de carros revezavam-se pela avenida, postes se acendiam em lúgubres feixes de luz. O vento frio feria-me a face, e seu melódico sopro embalava minhas agitadas recordações. Se não em todos, em mim, pelo menos, elas ficariam guardados pra sempre.

3 comentários:

Fabrícia disse...

Bom, passando por aqui, primeira vez e pode ter certeza, com ótima primeira impressão!! Uma mesclagem de certo modo do que a gente vê na realidade com um toque digo bem particular e interior, num sei como falar o modo real como me tocou, mas tentando. Nay, "parabenzão", adorei de verdade, mesmo mesmo!! Beijos

Renata disse...

Tudo, exatamente tudo verdade, dito com muita sabedoria..o que acontece realmente nessas situações, adorei o blog Gemula!
tá de parabéns!beijos!

Renata Andrade disse...

Nayab's, Seus textos são arrebatadores :)
♥ sucesso gatona!