Nunca tinha estado naquela casa. Numa crudelíssima ironia, acabei adentrando-a apenas em tal ocasião. Já na frente, as pessoas iam se ajuntando. Muitos rostos conhecidos marcados pelo mesmo olhar perdido. E como eu previa, depois de algum tempo, minhas lágrimas mostraram-se em companhia de outras daqueles que comigo estavam.
Quando a menina passou tão próxima de mim, pude, por um segundo, fitar-lhe os olhos. E assim, meu choro intensificou-se. Sua expressão era serena, a face daquela que ainda não sofrera o impacto e se recusava a acreditar. Enfim veio o homem, abatido e de olhos inchados; e o mais esperado por nós: o menino. Agora as lágrimas eram grossas: as minhas, as dos meus e as dos outros.
O menino a quem tantas vezes dei-me em abraços, que crescera em minha presença; que riu de mim, pra mim e comigo; que alegrou-me em tantas manhãs e tardes com suas tolices tão peculiares. O menino agora era apatia e tristeza. Cabisbaixo, trajado em sóbrio preto, não derramava o mínimo pranto. Talvez todo ele já tivesse rolado; talvez nunca rolaria, sufocado pelo estigma forçado de masculinidade, ou mesmo pela incredulidade.
A passagem do homem e do menino deu início ao cortejo. Pelo longo trajeto as pessoas se espalhavam. Ainda era dia claro. Entre os meus, o silêncio era cortante; entre os outros ouviam-se palavras muitas. Como de costume, passei a analisar o ambiente que me cercava. E perdi-me em indagações... Quantos ali sentiam de fato a dor? Quantos eram sinceros e quantos queriam apenas cumprir seu papel? Quais pensamentos estariam se passando nas mentes de todas aquelas pessoas?
Sim, muitos eram os que seguiam em respeitoso silêncio e deixavam cair modestas lágrimas. Mas também eram muitos os que não pareciam expressar a mínima emoção, nem ter certo tom de respeito, ao menos, em sua caminhada. Vestidos a passeio, conversavam sobre os mais diversos assuntos, sorrindo. Amigos que aproveitavam o momento para confraternizações íntimas. No meio dos anônimos, figuravam pessoas públicas, sedentas pelo reconhecimento e pela fama, numa lamentável aparição à custa do sofrimento alheio.
E essas cenas causaram uma mudança em meu semblante, já que eu contemplava, indignada e pasmada, faces diversas do ser humano. Por aquele caminho em que tantas vezes deitei sorrisos, música e dança, em que fui tão feliz e fiz festa, caíam agora minhas lágrimas de tristeza e reflexão. Como poderia estar lado a lado entre a multidão tanta pureza e fealdade? Como poderiam estar solidariedade, saudade, compaixão e pesar fundidos ao interesse, falta de consciência e desrespeito?
À frente, vozes em uníssono cantavam hinos, enquanto o menor ruído não ousava subir-me a garganta. O sol baixava, e o céu, entre azul e alaranjado, mostrava seu luto com nuvens escassas e escurecidas. Em passo lento, ia chegando ao fim a última caminhada ao lado de alguém com quem se caminharia na eternidade.
Enfim chegou-se ao destino. Já era escuro quando tive a última visão do menino, amparado por braços familiares. Esperei por algum tempo, e quando todos já se dispersavam, dei-lhe um forte abraço. Para ele sei que não significou muito, tantos foram os abraços conhecidos ou não que já lhe tinham dado até então. Quanto a mim, esforcei-me por colocar naquele abraço todo o conforto que poderia lhe transmitir.
Selado assim o toque de recolher, caminhei muda de volta pra casa, remoendo os acontecimentos do triste cortejo. Faróis de carros revezavam-se pela avenida, postes se acendiam em lúgubres feixes de luz. O vento frio feria-me a face, e seu melódico sopro embalava minhas agitadas recordações. Se não em todos, em mim, pelo menos, elas ficariam guardados pra sempre.


3 comentários:
Bom, passando por aqui, primeira vez e pode ter certeza, com ótima primeira impressão!! Uma mesclagem de certo modo do que a gente vê na realidade com um toque digo bem particular e interior, num sei como falar o modo real como me tocou, mas tentando. Nay, "parabenzão", adorei de verdade, mesmo mesmo!! Beijos
Tudo, exatamente tudo verdade, dito com muita sabedoria..o que acontece realmente nessas situações, adorei o blog Gemula!
tá de parabéns!beijos!
Nayab's, Seus textos são arrebatadores :)
♥ sucesso gatona!
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