Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Bom Dia!


Era assim, sempre.
Todas as vezes em que saía de casa, o mesmo procedimento se repetia. Óculos escuros eram seu acessório indispensável, e sempre lançava mão de celular ou fones de ouvido em sua empreitada para escapar ilesa. Andava veloz, como quem estivesse em fuga constante. E não se permitia olhar para os lados. Sorrir então, nem se fala. Aquele era um erro primário, que só não superava a mais imperdoável das infrações: pronunciar um "bom dia".
No início ainda tentava manter as aparências. Ao avistar um conhecido - para ela, leia-se "incômodo" - mudava o trajeto e tomava atalhos que mais prolongavam que diminuiam seu caminho. Aos poucos, admitiu-se uma adepta extremada da "arte de evitar pessoas", como bem gostava de definir. E já não fazia mais questão de mudar de rumo. Passava reto, simplesmente. Sua indiferença era tamanha que chegou o dia em que não restou mais conhecido algum, poupando-lhe qualquer gesto anti-social.
Quem já era habituado a vê-la seguir seu percurso diário sabia. Passaria impenetrável, sempre envolta em armadura de auto-suficiência. Feições impassíveis, incapazes de esboçar simples alusões de sentimento. Por isso, ninguém mais se atrevia a tentar quebrar sua resistência com os bons modos e simpatia de outrora. Não adiantaria, todos já estavam cientes. Ela era imune.
Muitas especulações giravam em torno dela: será que não sabia falar português, ou mesmo que era muda? Teria feito alguma cirurgia plástica que não lhe permitisse a mobilidade dos músculos da face? Seria mesmo humana? Nenhuma resposta. Mas havia aqueles que ousavam profetizar: "chegará o dia em que ela se curvará, e hei de morrer tendo escutado alguma vez um 'bom dia' da sua boca".
E eis que algo aconteceu. Há quem diga que naquele dia o céu ficou cinza, e ventos fortes agitaram os varais e cortinas da rua. Lá vinha ela, como era de costume. Mas algo estava diferente, rompendo com sua aura imaculada de superioridade. Seu corpo já não era mais o mesmo. Parecia inchada, como uma bexiga cheia de ar. Todos os olhos se voltaram para ela, e a rua toda ficou em polvorosa. O que se sucedeu para que ela ficasse assim de uma hora para outra? Os comentários não cessaram durante o resto do dia, todos mobilizados em torno do mistério.
No dia seguinte, sua passagem continuou causando fuzuê. Mais inchaço, mais admiração e mais comentários. E não parou por aí, o mesmo padrão se seguiu nos outros dias. Ela parecia cada vez mais cheia, mais redonda e mais próxima de uma explosão. Toda sua empáfia tornara-se rarefeita para uma forma corporal tão exagerada, e quanto mais ela crescia, mais fragilidade demonstrava.
Foi então que a profecia se tornou concreta. Ela surgiu, enorme como nunca. Já não era mais veloz, o esforço para conciliar cada passo sob seu tamanho era notável. Até que tal esforço foi insuficiente, e todos puderam testemunhar sua queda. Não sendo mais capaz de agüentar-se de pé, caiu aos poucos, quase em câmera lenta. E saiu rolando rua abaixo, até bater de frente com um muro.
Uma multidão se ajuntou ao seu redor, curiosa por saber o que acontecera. Ali estava ela, ao chão, imóvel. Teria morrido?, todos se perguntaram, perplexos. E os segundos de dúvida tiveram fim. Com dificuldade, ela moveu a cabeça para o lado e tossiu. De sua boca começou a sair uma enxurrada de palavras, aquelas nunca ditas e guardadas durante anos. À medida que as palavras iam saindo, ela ia se desenchendo e retomando sua forma antiga.
Paralisada, a aglomeração escutou incrédula os espasmos de saudações e cumprimentos, e a viu reduzir de tamanho até tornar-se bem pequena e vazia. A menina-bexiga já não tinha nenhum ar dentro de si. Até que um som cruzou o ar, perfurando os tímpanos dos presentes. Quando todos julgavam acabado o estoque de palavras, escutou-se um grito ensurdecedor de "bom dia". O último, e talvez primeiro "bom dia" da sua vida. E o mesmo que antecedeu seu último suspiro.

Domingo, 31 de Maio de 2009

Mano Velho

Ele me tomou quase tudo. Passou rápido e deixou seqüelas. Mas não posso dizer exatamente que eu não o tenha visto passar. Aqui onde estou ainda consigo vê-lo, ao longe, dobrando a esquina. E sei que, se correr, ainda posso alcançá-lo. Ainda serei capaz de correr? Otimismo nunca foi meu forte, sabe como é. E esse mesmo otimismo talvez seja justamente mais uma das coisas que me foram levadas, e que me fazem tanta falta.
Também não posso dizer que ele precisou usar a força pra tirar tudo que me tomou, nem ao menos que tenha me enganado. Não gosto de condená-lo, por mais danos que tenha causado. Sei que ele não usou de má fé. Essa é sua função, não é? Perdas, ganhos, e sobretudo aprendizado. Minha passividade foi exatamente a oportunidade da qual precisava. Mas, pensando bem, de que adiantaria resistir?
Ele não só subtraiu, sejamos justos. Arrisco dizer que muito do que ele trouxe - e foi muito, veja bem - chegou até a compensar o que tomou.
Jamais voltará, sei disso. E eu nunca quis que fosse assim. Pode até não ter acontecido da melhor forma possível. Mas aconteceu como tinha de ser, da forma exata como estava planejado. Não por mim, mas por quem realmente sabe tudo aquilo que não sei e julgo, tão tolamente, saber.
Meu viço, eis o principal que ele guardou em sua bagagem ao me deixar. Minhas músicas, meus versos, minhas fotografias. Gente minha também se foi com ele. Tantos foram e eu fiquei aqui: único fragmento que rompe o vazio.
Apesar de tudo, ainda tenho esperanças de recuperar algumas das coisas que me foram tomadas. Não será igual, eu sei. Mas a essência permanece, e é isso que me move. Ele mesmo já me ensinou de outras vezes. Um dia o quebra-cabeças voltará a se encaixar em seu lugar, por mais que o vento tenha levado consigo algumas peças importantes.
'Tempo, tempo, tempo mano velho.'¹ Siga seu curso, como deve ser. Não te guardo mágoas nem rancores. Vá, um dia a gente acaba se encontrando por aí. Te verei de relance por algum desses caminhos. E sua visão me arrancará sorrisos. E lágrimas.

~

¹ "Sobre o tempo", de Pato Fu.

Quinta-feira, 30 de Abril de 2009

Devolução

É, eu sei. Jurei não mais te procurar. Mas prometo que não vou tomar muito do teu tempo. Só vim te devolver algumas coisas. Estava fazendo uma faxina, e as achei perdidas num canto. Leva com você, joga fora, faz o que quiser. Acredito que não terá muita utilidade agora. E será mesmo que já teve algum dia?
Desde que você foi embora, nada disso deve me pertencer mais. Aliás, nunca pertenceu. Estava tudo sob minha posse sim, não posso negar. Mas só por que você o quis, e assim me fazia querer.
Pode conferir, aí não está nada do que você me deu. Todos os presentes, flores e cartões continuam guardados comigo. Esses sim são meus por direito, e nenhuma circunstância nova poderá tirá-los de mim. O que te devolvo hoje é a parte que sem você não posso ser.
Devolvo o cheiro do meu cabelo e da minha pele, que te entorpeciam em meio aos abraços. E a cor das minhas unhas, que vivia a colorir tuas costas. Devolvo o sabor do beijo, que só contigo pode ser o meu sabor. E a temperatura da minha pele, lembra como era o cobertor perfeito? Fica com meu sorriso torto, aquele que só você conseguia despertar. E com o brilho dos meus olhos, que refletiam os seus quando me encarava de canto. Devolvo também minha inspiração e todos os versos que eu te fiz. E a minha voz esganiçada te cantando a nossa canção. Leva também meus afagos e carinhos, do molde certo para o teu corpo. Esqueci alguma coisa?
Algo ainda deve haver. Por mais que a gente pense que tenha limpado até o último espaço, sempre fica algo perdido. Se eu achar alguma parte sua em mim, passo pra te devolver. Espero não ter incomodado muito. Bom, até qualquer dia.