
Era assim, sempre.
Todas as vezes em que saía de casa, o mesmo procedimento se repetia. Óculos escuros eram seu acessório indispensável, e sempre lançava mão de celular ou fones de ouvido em sua empreitada para escapar ilesa. Andava veloz, como quem estivesse em fuga constante. E não se permitia olhar para os lados. Sorrir então, nem se fala. Aquele era um erro primário, que só não superava a mais imperdoável das infrações: pronunciar um "bom dia".
No início ainda tentava manter as aparências. Ao avistar um conhecido - para ela, leia-se "incômodo" - mudava o trajeto e tomava atalhos que mais prolongavam que diminuiam seu caminho. Aos poucos, admitiu-se uma adepta extremada da "arte de evitar pessoas", como bem gostava de definir. E já não fazia mais questão de mudar de rumo. Passava reto, simplesmente. Sua indiferença era tamanha que chegou o dia em que não restou mais conhecido algum, poupando-lhe qualquer gesto anti-social.
Quem já era habituado a vê-la seguir seu percurso diário sabia. Passaria impenetrável, sempre envolta em armadura de auto-suficiência. Feições impassíveis, incapazes de esboçar simples alusões de sentimento. Por isso, ninguém mais se atrevia a tentar quebrar sua resistência com os bons modos e simpatia de outrora. Não adiantaria, todos já estavam cientes. Ela era imune.
Muitas especulações giravam em torno dela: será que não sabia falar português, ou mesmo que era muda? Teria feito alguma cirurgia plástica que não lhe permitisse a mobilidade dos músculos da face? Seria mesmo humana? Nenhuma resposta. Mas havia aqueles que ousavam profetizar: "chegará o dia em que ela se curvará, e hei de morrer tendo escutado alguma vez um 'bom dia' da sua boca".
E eis que algo aconteceu. Há quem diga que naquele dia o céu ficou cinza, e ventos fortes agitaram os varais e cortinas da rua. Lá vinha ela, como era de costume. Mas algo estava diferente, rompendo com sua aura imaculada de superioridade. Seu corpo já não era mais o mesmo. Parecia inchada, como uma bexiga cheia de ar. Todos os olhos se voltaram para ela, e a rua toda ficou em polvorosa. O que se sucedeu para que ela ficasse assim de uma hora para outra? Os comentários não cessaram durante o resto do dia, todos mobilizados em torno do mistério.
No dia seguinte, sua passagem continuou causando fuzuê. Mais inchaço, mais admiração e mais comentários. E não parou por aí, o mesmo padrão se seguiu nos outros dias. Ela parecia cada vez mais cheia, mais redonda e mais próxima de uma explosão. Toda sua empáfia tornara-se rarefeita para uma forma corporal tão exagerada, e quanto mais ela crescia, mais fragilidade demonstrava.
Foi então que a profecia se tornou concreta. Ela surgiu, enorme como nunca. Já não era mais veloz, o esforço para conciliar cada passo sob seu tamanho era notável. Até que tal esforço foi insuficiente, e todos puderam testemunhar sua queda. Não sendo mais capaz de agüentar-se de pé, caiu aos poucos, quase em câmera lenta. E saiu rolando rua abaixo, até bater de frente com um muro.
Uma multidão se ajuntou ao seu redor, curiosa por saber o que acontecera. Ali estava ela, ao chão, imóvel. Teria morrido?, todos se perguntaram, perplexos. E os segundos de dúvida tiveram fim. Com dificuldade, ela moveu a cabeça para o lado e tossiu. De sua boca começou a sair uma enxurrada de palavras, aquelas nunca ditas e guardadas durante anos. À medida que as palavras iam saindo, ela ia se desenchendo e retomando sua forma antiga.
Paralisada, a aglomeração escutou incrédula os espasmos de saudações e cumprimentos, e a viu reduzir de tamanho até tornar-se bem pequena e vazia. A menina-bexiga já não tinha nenhum ar dentro de si. Até que um som cruzou o ar, perfurando os tímpanos dos presentes. Quando todos julgavam acabado o estoque de palavras, escutou-se um grito ensurdecedor de "bom dia". O último, e talvez primeiro "bom dia" da sua vida. E o mesmo que antecedeu seu último suspiro.


